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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Conheça Wayne La Pierre, o capo do lobby das armas nos EUA

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/patriciacamposmello/2018/02/conheca-wayne-la-pierre-o-capo-do-lobby-das-armas-nos-eua.shtml

O líder da NRA encabeça a luta contra o controle de armas no país

23.fev.2018 às 2h00

“Estamos aqui porque minha filha não tem voz —ela foi assassinada na semana passada, levou nove tiros. Quantas escolas, quantos filhos vão ter que morrer? Deveria ter sido um massacre em escola e nós termos resolvido essa questão. Eu estou furioso, porque nunca mais vou ver minha filha.”

Quem disse isso ao presidente Donald Trump foi Andrew Pollack, pai de Meadow, 18 anos, uma das 17 pessoas mortas na semana passada no massacre da escola em Parkland, na Flórida.

Mas para Wayne LaPierre, chefão da National Rifle Association (NRA, Associação Nacional do Fuzil), o poderoso lobby das armas nos Estados Unidos, Andrew é mais um “oportunista”, que tira proveito de massacres para tentar aprovar leis de controle de armas.

Com a palavra La Pierre, em discurso na CPAC (Conferência da Ação Política Conservadora) : “Como de costume, os oportunistas não perderam nem um segundo para usar a tragédia para ganho político...as elites não estão nem aí para as escolas americanas e os alunos. Para eles, não se trata de uma questão de segurança, mas sim uma questão política.”

Segundo ele, o direito constitucional de portar armas não é “concedido pelos homens, mas garantido por Deus para todos os americanos”.

Desde o massacre de Sandy Hook, em 2012, em que 20 crianças de 5 e 6 anos morreram nas mãos de um atirador alucinado, foram apresentados mais de 100 projetos de lei de controle de armas no Congresso americano. Nenhum passou.

Essa façanha foi obra de Wayne LaPierre, que é a cara e a voz da National Rifle Association há 30 anos. A NRA tem 5 milhões de membros e um poder gigantesco. Em vídeo em 2016, La Pierre afirmou que Trump era o “candidato mais favorável à Segunda Emenda (da Constituição americana, que garante porte de armas) da história”.

A NRA doou US$ 30 milhões para a campanha de Donald Trump em 2016. O investimento valeu a pena. Após o massacre de Parkland, Trump fez concessões apenas laterais –apoiou projeto de lei que aprimora a checagem de antecedentes de compradores de armas e pediu que seja proibido o “bump stock”, que basicamente transforma fuzis semiautomáticos em metralhadoras.

Mas elogiou Wayne, um “grande patriota”, e culpou doenças mentais, e não armas, pelos seguidos massacres em solo americano. Não existe o menor perigo de Trump, por exemplo, querer reintroduzir o veto a “armas de assalto”, como o fuzil semi-automático AR-15 usado pelo atirador de Parkland. O veto expirou em 2004.

Tampouco LaPierre deve temer que Trump queira adotar um banco de dados universal para compradores de armas, ou limites para tamanho dos pentes de munição. Aliás, o presidente americano propôs que os professores estejam armados –uma das ideias defendidas por La Pierre, afinal, isso vai ajudar a vender ainda mais armas. Após o massacre de Sandy Hook, o lobista disse:
“Para deter um cara mau armado, é preciso um cara bom armado.”

A NRA mantém uma lista que classifica os legisladores americanos como mais e menos “gun friendly”. Se o senador ou deputado é A+, ele fez contribuições importantes para legislações de interesse do NRA e defende de forma vigorosa a Segunda Emenda. Se o legislador é F, ele é um verdadeiro inimigo dos direitos dos proprietários de armas e lidera esforços para aprovar legislação de controle de armas.

Nas eleições de 2008, a NRA gastou US$ 40 milhões em contribuições de campanha –e US$ 10 milhões tentando evitar a vitória do então candidato Barack Obama. “A NRA é ponderosa o suficiente para barrar qualquer projeto de lei (de controle de armas)”, diz o senador Chris Murphy, nota F na lista do grupo de lobby.

Existem 300 milhões de armas em circulação nos EUA –quase uma para cada um dos 323 milhões de habitantes. Graças ao senhor LaPierre, esse número vai continuar aumentando.

Patrícia Campos Mello
Repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA e escreve sobre política e economia internacional. Escreve às sextas-feiras.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Para Trump, assassino branco é doente mental, estrangeiro é terrorista

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/patriciacamposmello/2018/02/para-trump-assassino-branco-e-doente-mental-estrangeiro-e-terrorista.shtml

Não se vê presidente condenar acesso a armas ou visões extremistas de brancos

16.fev.2018 às 2h00

O mundo de Donald  Trump é mesmo curioso. Quando um branco é autor de um massacre, ele tem problemas mentais. Se o assassino é estrangeiro, ele é terrorista e é preciso fechar as fronteiras dos EUA.

No dia 31 de outubro de 2017, quando um imigrante do Uzbequistão atropelou corredores e ciclistas em Nova York, matando 8 pessoas e ferindo 11, o presidente Donald Trump correu para o Twitter para condenar os estrangeiros terroristas "que vêm para os Estados Unidos matar pessoas".

"O terrorista entrou no nosso país pelo programa de loteria de visto de diversidade, uma beleza do senador (democrata) Chuck  Schumer. Eu quero (imigração) baseada em mérito", tuitou Trump após o ataque.

O programa de loteria dá vistos para cidadãos de nacionalidades pouco representadas nos Estados Unidos, e é um dos alvos da reforma migratória que Trump tenta implementar —ele quer acabar com a loteria, com os vistos em cadeia, que permitem trazer parentes, e construir o muro com o México.

"Migração em cadeia precisa acabar agora! Algumas pessoas entram, trazem a família toda, e alguns podem ser realmente maus", comentou no Twitter.

"Não vamos permitir que o Estado Islâmico retorne ou entre em nosso país após derrotá-lo no oriente Médio e outros lugares. Basta!", disse.

De fato, o assassino havia jurado lealdade ao Estado Islâmico. Mas isso não justifica dizer que todos os beneficiários da loteria de vistos ou da imigração em cadeia são terroristas.

O autor do massacre em Parkland, Flórida, é um jovem branco, de olhos claros, que era membro de uma organização supremacista cujo líder afirmou: "é inevitável que as pessoas enlouqueçam, porque vivemos em uma sociedade inerentemente doente" por causa do "hiperigualitarismo e feminismo".

O que Trump tinha a dizer sobre isso? Ele condenou os movimentos supremacistas brancos? Criticou a facilidade com que indivíduos violentos e potencialmente com perturbação mental compram fuzis semiautomáticos  AR-15? Não.

"Tantos sinais de que o atirador da Flórida tinha distúrbios mentais: foi até expulso da escola por mau comportamento. Vizinhos e colegas de classe sabiam que ele tinha problemas. É preciso avisar as autoridades nesses casos, sempre!", disse Trump no Twitter, após a tradicional mensagem de condolências.

Segundo levantamento do site Vox, desde que Trump assumiu, mais americanos foram mortos por homens americanos brancos sem conexões com o islamismo do que por terroristas estrangeiros. Foi um homem branco de 64 anos que matou 58 pessoas em Las Vegas no ano passado.

Mas não se viu Trump condenar o acesso a armas ou visões extremistas quando os assassinos eram brancos.

Quando supremacistas brancos causaram a morte de uma mulher em um protesto em Charlottesville, em agosto do ano passado, Trump afirmou que "havia culpa dos dois lados" (neonazistas e pacifistas) dizendo que "ambos eram muito violentos".

Após o tiroteio em uma igreja do Texas, em novembro passado, Trump afirmou que o massacre, que deixou 26 mortos, "não era uma situação de armas", mas "um problema de saúde mental em seu mais alto nível".

Vale lembrar que foi o próprio Trump que, no começo do ano passado, derrubou um decreto presidencial de Barack Obama que impedia pessoas que recebiam ajuda da previdência social por doença mental de comprar armas.

Patrícia Campos Mello
Repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA e escreve sobre política e economia internacional. Escreve às sextas-feiras.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Em Davos, Trump e Temer vendem peixe que ninguém quer comprar

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/patriciacamposmello/2018/01/1953414-em-davos-trump-e-temer-vendem-peixe-que-ninguem-quer-comprar.shtml

26.jan.2018 às 2h03

O presidente Michel Temer e seu companheiro do norte, o americano Donald Trump, tentam vender para o clube de Davos um peixe que ninguém quer comprar.

Temer insiste que "o Brasil está de volta", enquanto Trump tenta convencer a arquibancada que a política "América em Primeiro Lugar" é genial.

O presidente brasileiro chegou festejando o Brasil, "país das reformas", que aprovou as novas regras trabalhistas, o teto de gastos, e indicou que a mudança na Previdência está próxima (sic).

Como Trump, Temer tem alguns indicadores econômicos vistosos para mostrar —investimento estrangeiro direto de US$ 75 bilhões em 2017, juros no menor patamar histórico, 7%, inflação abaixo do piso de 3%, superávit da balança comercial de US$ 67 bilhões.

Temer falou até das "perspectivas realistas" de concluir o acordo EU-Mercosul (que começou a ser negociado em, pasmem, 1999, portanto um grão de ceticismo vai bem), o acesso à OCDE (faltou mencionar o veto dos EUA, a Argentina na nossa frente, a real utilidade de entrar na organização, etc etc), o combate ao aquecimento global (omissão estratégica das medidas pró-bancada do boi adotadas em seu governo).

Mas isso não parece suficiente para convencer a Davoslândia que o Brasil voltou, e que vai ficar tudo bem, a eleição de 2018 não é um "big deal", ninguém precisa prestar atenção na situação política absolutamente bizarra em vigor no país.

Na sessão de perguntas e respostas após o discurso de Temer, o criador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, não conseguiu ignorar o bode na sala.

"O senhor não mencionou explicitamente a corrupção, vocês têm alguns casos de corrupção que estão pairando, o senhor acha que eles podem influenciar as próximas eleições?"

(A pergunta foi omitida na transcrição que a Presidência fez da sessão de perguntas e respostas, substituída por Professor Klaus Schwab (em inglês))

A pergunta não se referia diretamente a acusações a Temer, mas o presidente acusou o golpe, ao ser indagado por jornalistas a respeito:

"Quero dizer que agora não vou mais tolerar essas coisas. Já houve a tentativa de desmoralização, os meus detratores estão na cadeia, e quem não está desmoralizado, desmascarados pelos fatos. Foi uma oportunidade que tive, até agradeci a pergunta, de esclarecer a Europa sobre essa questão" afirmou Temer.

Trump, como Temer, ostenta nível recorde de baixa popularidade. Temer tem 5% no último Datafolha, Trump ficou com 36% no último Gallup, índice mais baixo da história para um presidente americano nesta altura do mandato.

O americano chegou com a mensagem de que "América em Primeiro Lugar" não significa "América Sozinha".

Segundo Trump, os números não mentem, sua política populista-protecionista é um sucesso —PIB cresceu acima de 3% em dois trimestres consecutivos, desemprego está em baixa, há sinais de repatriação de investimentos.

Mas, como no caso de Temer, a comunidade de Davos se permite discordar.

OK, a bolsa de valores reflete o otimismo do empresariado com os EUA. Mas talvez esse otimismo se deva à reforma tributária e à desregulamentação promovidas por Trump, e se mantenha apesar da política de "América em Primeiro Lugar", a despeito da saída dos EUA da Parceria Transpacífico e do acordo global do clima, das tarifas que o país acaba de impor sobre painéis solares e maquinas de lavar importadas da China, etc, etc.

Patrícia Campos Mello
Repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA e escreve sobre política e economia internacional. Escreve às sextas-feiras.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A assustadora doutrina Trump

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/patriciacamposmello/2018/01/1949806-a-assustadora-doutrina-trump.shtml

12.jan.2018 às 2h03

As reportagens sobre o best-seller "Fire and fury" se concentraram nas (assustadoras) revelações sobre o estado mental do presidente Donald Trump e na (pouca) credibilidade do autor do livro, Michael Wolff.

Ficaram perdidos na discussão os relatos (igualmente assustadores) sobre o processo decisório de Trump para a política externa dos Estados Unidos.

Quando se trata de política externa, Trump não segue a "construção de nação e exportação de democracia" dos neoconservadores de George W. Bush, nem a abordagem de "liderar dos bastidores (leading from behind)" e "não fazer bobagem" de Barack Obama, e muito menos o "globalismo" e "expansão dos livres mercados" de Bill Clinton.

A política externa de Donald Trump também não é isolacionista e "América em Primeiro Lugar", como ele mesmo alardeia. Trump segue uma política externa "aleatória e desinformada", segundo "Fire and fury".

Como é sabido, a pessoa mais poderosa na Casa Branca hoje é aquela que fala por último com Donald Trump, já que o presidente sempre segue o último conselho que ouve. Mas alguns conselhos antigos reverberam na cabeça do republicano.

Ele foi evangelizado pelo ex-assessor de segurança nacional Michael Flynn sobre a perfídia do Irã. Então a lente pela qual Trump enxerga o oriente Médio é: o Irã é mau. Os amigos do Irã são maus. Os inimigos do Irã são bons.

Tudo de acordo com o grande princípio da realpolitik trumpiana: "o inimigo do meu inimigo é meu amigo".

Isso explica que seu BFF seja o príncipe saudita Mohammed bin Salman, o MbS. MbS pode bombardear civis no Iêmen à vontade, fazer bullying contra o primeiro-ministro libanês, boicotar o Qatar, que abriga a maior base americana no Oriente Médio. Não importa, Trump não faz nem críticas protocolares. Inimigo do Irã é meu amigo.

Segundo o livro, o Oriente Médio de Trump se resume a quatro países —Israel, Egito, Arábia Saudita e Irã. De novo, a abordagem é maniqueísta —Irã mau. O resto, bom.

De acordo com Wolff, a doutrina Trump divide o mundo entre: "países com os quais a gente pode trabalhar, países com os quais a gente não pode trabalhar, e países sem poder suficiente, que podem ser ignorados ou sacrificados".

Ainda segundo ele, Trump acredita piamente que, em troca do apoio americano, o Egito e a Arábia Saudita vão pressionar os palestinos a fechar um acordo de paz com Israel. E que os palestinos vão ceder.

Em um encontro com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, Trump teria puxado o colega de lado e dito, encarnando Pelé ou Hulk: "Trump vai fazer a paz."

É, e o pessoal preocupado porque o presidente dos EUA come cheeseburger na cama e sempre repete as mesmas histórias.

Patrícia Campos Mello
Repórter especial da Folha, foi correspondente nos EUA e escreve sobre política e economia internacional. Escreve às sextas-feiras.