Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/10/1924060-em-debate-sobre-polemica-do-mam-deputados-sugerem-porrada-e-tortura.shtml
RANIER BRAGON
DE BRASÍLIA
03/10/2017 20h45
Deputados federais quase entraram em confronto físico no plenário da Câmara nesta terça-feira (3) ao baterem boca em torno da mostra que envolveu a interação de uma criança com um homem nu no Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Dois parlamentares chegaram a defender "porrada" e tortura em colegas e no coreógrafo Wagner Schwartz, que realizou o trabalho na abertura da exposição "Brasil em Multiplicação" —nela seu corpo pode ser tocado pelo público, em uma interpretação da obra "Bicho", de Lygia Clark.
Durante o ato, uma menina foi incentivada pela mãe a interagir com o artista. Agachada, ela se movimentou ao lado dele e tocou sua perna e sua mão.
Um dos primeiros deputados a se inflamar na Câmara nesta terça foi João Rodrigues (PSD-SC), que em 2015 chegou a ser flagrado no plenário vendo pornografia no seu aparelho de telefone celular em plena votação da reforma política. Na época atribuiu o episódio a amigos que lhe mandavam "muita sacanagem".
"Um marmanjo completamente nu de mãos dadas com três ou quatro crianças fazia uma apresentação cultural", começou a discursar o deputado, subindo o tom a cada frase dita.
"O ato daquele pilantra que estava nu no museu de artes modernas não é só um ataque à moral do povo brasileiro, mas é pra mexer com o subconsciente dos tarados do Brasil. O psicopata, o tarado por criança, quando vê aquela imagem daquele patife, certamente dirá: 'tudo pode'.", prosseguiu.
Ao final de sua fala, se exaltou mais ainda: "Não consigo acreditar que tenha algum pilantra, algum vagabundo dentro dessa Casa que aplauda isso, porque se tiver tem que levar porrada. Se tiver tem que ir para o cacete, para aprender. Bando de safado, bando de vagabundo, bando de traidores da moral da família brasileira. Tem que ir pra porrada com esses canalhas."
Após sua fala, o deputado Edmilson Rodrigues (PSOL-PA) foi à tribuna e lembrou o episódio em que João Rodrigues foi flagrado vendo e mostrando imagens pornográficas a colegas no plenário. "Ele foi flagrado assistindo filme pornográfico. Se é filme pornográfico, tem sexo, tem nu. Tenha vergonha na cara aqueles que querem dar puxão de orelha aos quem têm compromisso com a arte e a justiça social."
Ao descer ao plenário, os ânimos se exaltaram e os dois tiveram que ser contidos por colegas para não se agredir.
Momentos depois, o deputado Laerte Bessa (PR-DF), que é delegado da Polícia Civil, exaltou instrumentos de tortura, afirmando que o coreógrafo da performance no MAM-SP merecia levar uma "taca".
"Pergunta se ele conhece direitos humanos? Direitos humanos é um porrete de pau de guatambu que a gente usou muitos anos em delegacia de polícia. Se ele conhece rabo de tatu [usado para chicotear presos], que também usamos em bons tempos em delegacia de polícia. Se aquele vagabundo fosse fazer aquela exposição (...) ele ia levar uma 'taca' que ele nunca mais ele iria querer ser artista e nunca mais iria tomar banho pelado", afirmou Bessa.
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), apelou para o deputado "manter o nível" e ordenou que suas palavras não fossem registradas nos anais da Casa.
Blog focado em Geografia e em fatos e notícias contemporâneas, que compõem as Atualidades.
terça-feira, 3 de outubro de 2017
Polêmica no MAM não é sobre arte e não é sobre pedofilia
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/pablo-ortellado/2017/10/1923624-polemica-no-mam-nao-e-sobre-arte-e-nao-e-sobre-pedofilia.shtml
Por Pablo Ortellado
03/10/2017 02h00
Desde a última quinta-feira (28), as redes sociais foram tomadas pela polêmica em torno da performance no Museu de Arte Moderna no qual o artista Wagner Schwartz ficava nu e se deixava manipular pelo público, tendo sido tocado por uma criança que assistia a apresentação.
Mais de dois milhões de links sobre a performance, acusada de estimular a pedofilia, foram compartilhados. O tema foi, de longe, o mais discutido no fim de semana nas redes sociais.
Mas a controvérsia não é sobre o que parece ser. O debate parece ser sobre proteção à infância ou sobre a irresponsabilidade dos artistas, mas, quando analisado de perto, se vê que é, na verdade, apenas uma estratégia dissimulada da direita para manipular o público e fazer avançar a agenda liberal de privatizações e redução dos serviços públicos.
O caso da performance no MAM acontece logo após um caso muito parecido no qual uma exposição no Santander Cultural em Porto Alegre foi acusada de promover a pedofilia e a zoofilia, tendo sido cancelada após protestos.
Reprodução
Criança interage com homem homem nu no Museu Arte Moderna de São Paulo
Criança interage com homem homem nu no Museu Arte Moderna de São Paulo
Por trás das duas campanhas, uma coisa em comum: um conjunto de organizações de direita que acusam a esquerda de promover o desvio e o crime sexual por meio das artes.
Como se vê num levantamento das matérias e posts mais compartilhados no Facebook, os principais promotores da campanha foram o MBL, o Instituto Liberal de São Paulo, o prefeito de São Paulo João Doria, o senador Magno Malta, os políticos da família Bolsonaro e o senador ruralista Ronaldo Caiado.
Eles estão fazendo o que os americanos chamam de "guerras culturais": estão manipulando a opinião pública, explorando a justa preocupação da sociedade com a proteção da infância, apenas para fazer avançar uma agenda oculta de redução dos serviços públicos.
O principal agitador da campanha contra o MAM foi o Movimento Brasil Livre, o MBL. O grupo foi o primeiro a denunciar a exposição e fez, desde o dia 28, dezenas de postagens na sua página de Facebook e no seu site, o Jornalivre.
As matérias do Jornalivre sobre o tema, somadas, chegaram a quase 500 mil compartilhamentos, cerca de um quarto de tudo o que se compartilhou sobre a polêmica nos últimos dias.
O MBL é um agrupamento político que descobriu que poderia usar o sentimento de revolta da população contra a corrupção para promover ideias liberais, já que o principal alvo da Lava Jato, na sua fase inicial, era o PT, um partido de esquerda.
O grupo foi um dos principais promotores das manifestações que pediram o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Mas depois que Dilma caiu e o presidente Michel Temer assumiu, o MBL mudou de postura: passou a minimizar as pesadas denúncias de corrupção que pesam contra Temer e passou a apoiar abertamente seu governo e sua impopular agenda de reformas liberais.
Assim como surfou cinicamente na onda anticorrupção para promover uma agenda oculta, o MBL insufla agora uma cruzada moral contra as artes, na qual não parece acreditar de verdade.
A princípio, não parece haver qualquer relação entre uma performance artística num museu e uma campanha contra a esquerda. Mas o MBL e outros grupos de direita fizeram questão de deixar claro que, ao atacar as artes, estavam na verdade atacando a esquerda.
Num dos posts mais compartilhados sobre o assunto, um dos líderes do MBL, Fernando Holiday diz que a performance "é a implementação de uma agenda ideológica da esquerda".
O Instituto Liberal de São Paulo, numa imagem que teve 280 mil compartilhamentos, argumentou, por sua vez, que, "para a esquerda, mãe que leva filha para tocar em homem nu é arte".
Em vídeo compartilhado no Youtube, o delegado Francisco Francischini disse que a esquerda "tem interesse político-partidário em destruir a família" e matéria do site Ceticismo Político, que teve 40 mil compartilhamentos, acusou a performance de fazer parte da "narrativa da extrema-esquerda".
O próprio fato que gerou a polêmica, se olhado de perto, parece, no mínimo, desproporcional com a repercussão –o que sinaliza os interesse políticos que o promovem. Na performance, o artista Wagner Schwartz dialoga com uma obra da consagrada artista Lygia Clark, chamada "bicho", uma escultura de metal com dobradiças que pode ser livremente manipulada e rearranjada pelo público.
Na performance, Schwartz manipula uma réplica de plástico de uma das esculturas de Clark e convida o público a fazer o mesmo com seu corpo nu, como se fosse uma peça viva da artista. A obra não tem nenhuma conotação erótica e o MAM responsavelmente sinalizou ao público que a apresentação continha nudez.
Uma coreógrafa que acompanhava a performance aceitou o convite do artista e, junto com sua filha, tocou o pé de Schwartz. Foi essa cena em que uma criança toca o pé de um homem nu, com a supervisão da mãe, no contexto de uma performance artística sem qualquer conteúdo erótico que a direita explorou em sua campanha política contra a esquerda.
Logo, a cena passou a ser retratada nas redes sociais como se a esquerda estivesse em uma campanha sinistra, estimulando crianças a tocarem em um homem nu, em "cena libidinosa", "condenada e absolutamente imprópria", como disse, por exemplo, o prefeito de São Paulo, João Doria, aliado do MBL.
A direita aproveitou a grande desconexão das artes visuais com o público –que não entende os caminhos do desenvolvimento formal da linguagem– para tirar a obra do seu contexto e transformar uma performance inócua em uma pérfida apologia da pedofilia.
Assim, sem qualquer constrangimento, o ativista de direita Alexandre Frota, um ator de filmes pornô, pode se alvoraçar em campeão da moralidade e ir ao museu agredir verbalmente funcionários e visitantes os chamando de "pedófilos".
Também parece cínica a campanha do MBL. Como mostrou reportagem da Folha, o agrupamento foi fundado por Pedro D'Eyrot, um dos membros do Bonde do Rolê, um grupo musical que explora amplamente temas de sexualidade não convencional.
Esses atores políticos não são campeões da moralidade da família –eles estão usando a sensibilidade dos brasileiros com o abuso sexual de crianças para fazer uma campanha contra a esquerda, o que abriria espaço para sua agenda oculta de diminuição do Estado e de redução do financiamento de escolas e hospitais.
Por Pablo Ortellado
03/10/2017 02h00
Desde a última quinta-feira (28), as redes sociais foram tomadas pela polêmica em torno da performance no Museu de Arte Moderna no qual o artista Wagner Schwartz ficava nu e se deixava manipular pelo público, tendo sido tocado por uma criança que assistia a apresentação.
Mais de dois milhões de links sobre a performance, acusada de estimular a pedofilia, foram compartilhados. O tema foi, de longe, o mais discutido no fim de semana nas redes sociais.
Mas a controvérsia não é sobre o que parece ser. O debate parece ser sobre proteção à infância ou sobre a irresponsabilidade dos artistas, mas, quando analisado de perto, se vê que é, na verdade, apenas uma estratégia dissimulada da direita para manipular o público e fazer avançar a agenda liberal de privatizações e redução dos serviços públicos.
O caso da performance no MAM acontece logo após um caso muito parecido no qual uma exposição no Santander Cultural em Porto Alegre foi acusada de promover a pedofilia e a zoofilia, tendo sido cancelada após protestos.
Reprodução
Criança interage com homem homem nu no Museu Arte Moderna de São Paulo
Criança interage com homem homem nu no Museu Arte Moderna de São Paulo
Por trás das duas campanhas, uma coisa em comum: um conjunto de organizações de direita que acusam a esquerda de promover o desvio e o crime sexual por meio das artes.
Como se vê num levantamento das matérias e posts mais compartilhados no Facebook, os principais promotores da campanha foram o MBL, o Instituto Liberal de São Paulo, o prefeito de São Paulo João Doria, o senador Magno Malta, os políticos da família Bolsonaro e o senador ruralista Ronaldo Caiado.
Eles estão fazendo o que os americanos chamam de "guerras culturais": estão manipulando a opinião pública, explorando a justa preocupação da sociedade com a proteção da infância, apenas para fazer avançar uma agenda oculta de redução dos serviços públicos.
O principal agitador da campanha contra o MAM foi o Movimento Brasil Livre, o MBL. O grupo foi o primeiro a denunciar a exposição e fez, desde o dia 28, dezenas de postagens na sua página de Facebook e no seu site, o Jornalivre.
As matérias do Jornalivre sobre o tema, somadas, chegaram a quase 500 mil compartilhamentos, cerca de um quarto de tudo o que se compartilhou sobre a polêmica nos últimos dias.
O MBL é um agrupamento político que descobriu que poderia usar o sentimento de revolta da população contra a corrupção para promover ideias liberais, já que o principal alvo da Lava Jato, na sua fase inicial, era o PT, um partido de esquerda.
O grupo foi um dos principais promotores das manifestações que pediram o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Mas depois que Dilma caiu e o presidente Michel Temer assumiu, o MBL mudou de postura: passou a minimizar as pesadas denúncias de corrupção que pesam contra Temer e passou a apoiar abertamente seu governo e sua impopular agenda de reformas liberais.
Assim como surfou cinicamente na onda anticorrupção para promover uma agenda oculta, o MBL insufla agora uma cruzada moral contra as artes, na qual não parece acreditar de verdade.
A princípio, não parece haver qualquer relação entre uma performance artística num museu e uma campanha contra a esquerda. Mas o MBL e outros grupos de direita fizeram questão de deixar claro que, ao atacar as artes, estavam na verdade atacando a esquerda.
Num dos posts mais compartilhados sobre o assunto, um dos líderes do MBL, Fernando Holiday diz que a performance "é a implementação de uma agenda ideológica da esquerda".
O Instituto Liberal de São Paulo, numa imagem que teve 280 mil compartilhamentos, argumentou, por sua vez, que, "para a esquerda, mãe que leva filha para tocar em homem nu é arte".
Em vídeo compartilhado no Youtube, o delegado Francisco Francischini disse que a esquerda "tem interesse político-partidário em destruir a família" e matéria do site Ceticismo Político, que teve 40 mil compartilhamentos, acusou a performance de fazer parte da "narrativa da extrema-esquerda".
O próprio fato que gerou a polêmica, se olhado de perto, parece, no mínimo, desproporcional com a repercussão –o que sinaliza os interesse políticos que o promovem. Na performance, o artista Wagner Schwartz dialoga com uma obra da consagrada artista Lygia Clark, chamada "bicho", uma escultura de metal com dobradiças que pode ser livremente manipulada e rearranjada pelo público.
Na performance, Schwartz manipula uma réplica de plástico de uma das esculturas de Clark e convida o público a fazer o mesmo com seu corpo nu, como se fosse uma peça viva da artista. A obra não tem nenhuma conotação erótica e o MAM responsavelmente sinalizou ao público que a apresentação continha nudez.
Uma coreógrafa que acompanhava a performance aceitou o convite do artista e, junto com sua filha, tocou o pé de Schwartz. Foi essa cena em que uma criança toca o pé de um homem nu, com a supervisão da mãe, no contexto de uma performance artística sem qualquer conteúdo erótico que a direita explorou em sua campanha política contra a esquerda.
Logo, a cena passou a ser retratada nas redes sociais como se a esquerda estivesse em uma campanha sinistra, estimulando crianças a tocarem em um homem nu, em "cena libidinosa", "condenada e absolutamente imprópria", como disse, por exemplo, o prefeito de São Paulo, João Doria, aliado do MBL.
A direita aproveitou a grande desconexão das artes visuais com o público –que não entende os caminhos do desenvolvimento formal da linguagem– para tirar a obra do seu contexto e transformar uma performance inócua em uma pérfida apologia da pedofilia.
Assim, sem qualquer constrangimento, o ativista de direita Alexandre Frota, um ator de filmes pornô, pode se alvoraçar em campeão da moralidade e ir ao museu agredir verbalmente funcionários e visitantes os chamando de "pedófilos".
Também parece cínica a campanha do MBL. Como mostrou reportagem da Folha, o agrupamento foi fundado por Pedro D'Eyrot, um dos membros do Bonde do Rolê, um grupo musical que explora amplamente temas de sexualidade não convencional.
Esses atores políticos não são campeões da moralidade da família –eles estão usando a sensibilidade dos brasileiros com o abuso sexual de crianças para fazer uma campanha contra a esquerda, o que abriria espaço para sua agenda oculta de diminuição do Estado e de redução do financiamento de escolas e hospitais.
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
Ataque deixa ao menos 59 mortos e 527 feridos em festival em Las Vegas
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/10/1923513-atirador-ataca-festival-de-musica-em-las-vegas-e-deixa-ao-menos-2-mortos.shtml
ISABEL FLECK
DE WASHINGTON
02/10/2017 03h57 - Atualizado às 23h51
Do alto de um hotel em Las Vegas, um atirador matou pelo menos 59 pessoas e feriu outras 527 num festival de música country na noite de domingo (madrugada de segunda em Brasília), segundo informações da polícia local. Este foi o mais grave ataque deste tipo na história moderna dos EUA.
O assassino, identificado como Stephen Paddock, 64, fez os disparos do 32º andar do hotel Mandalay Bay, que fica próximo ao local do festival, na Las Vegas Strip, principal rua da cidade. Ele foi encontrado morto pelos policiais dentro do hotel.
De acordo com a polícia, mais de 22 mil pessoas estavam no show na hora do ataque.
Não está clara ainda a motivação do atirador, que morava na cidade de Mesquite, em Nevada, a 120 km de Las Vegas. Paddock não tinha passagem pela polícia.
As autoridades informaram que ele estava hospedado no Mandalay Bay desde a última quinta-feira (28). A polícia encontrou 23 armas no quarto do hotel, divididas em dez malas, e outras 19 na casa do atirador em Mesquite.
Mais de cinco horas após o ataque, o presidente Donald Trump tuitou, na manhã desta segunda, uma mensagem de apoio às famílias. "Minhas mais sinceras condolências às vítimas e às famílias do terrível ataque em Las Vegas. Deus os abençoe!"
Os tiros começaram por volta das 22h de domingo (2h de segunda em Brasília), durante o show em uma arena aberta do cantor Jason Aldean no festival Route 91 Harvest, em uma área com vários resorts em Las Vegas. Pouco depois da meia-noite, a polícia informou que o atirador estava morto.
Ao ouvirem os disparos, as pessoas começaram a se deitar no chão e a procurar abrigo em meio ao descampado.
Vídeos feitos com celular capturaram cerca de dez segundos de tiroteio intenso, seguidos de 37 segundos sem o barulho de armas. Uma segunda rodada de tiros então começa, com gritos de desespero das pessoas no local.
Em uma rede social, Aldean declarou que "dói o meu coração que isso tenha acontecido com pessoas que estavam apenas curtindo o que deveria ter sido uma saída divertida".
Apesar de a polícia afirmar que Paddock era provavelmente o único atirador, o xerife Joseph Lombardo disse que buscava uma mulher chamada Marilou Danley, que também estaria envolvida no ataque, e dois carros, uma Hyundai Tucson e uma Chrysler Pacifica Touring, ambos com placa de Nevada. Danley e os dois veículos foram localizados algumas horas depois.
Alguns voos previstos para o Aeroporto Internacional McCarran, em Las Vegas, foram desviados para outras cidades após o incidente. Várias ruas da cidade foram bloqueadas.
No Twitter, usuários compartilham vídeos que mostram o momento em que os tiros começaram.
O consultor financeiro Mike McGarry, 53, disse que estava no festival quando ouviu centenas de disparos de tiros.
"Foi uma loucura —eu me deitei em cima do pessoal. Eles têm 20 anos. Eu tenho 53. Eu já vivi uma boa vida", afirmou. A parte de trás de sua camiseta tinha marcas de pegadas de pessoas que tinham corrido por cima dele depois que a multidão entrou em pânico.
O número de vítimas registrado é maior que o do atentado de 2016 na boate gay Pulse, em Orlando, Flórida, quando um atirador que alegou ter ligações com a milícia terrorista Estado Islâmico matou 49 pessoas.
REAÇÕES
O governador do Estado, o republicano Brian Sandoval, disse que "o ato trágico e hediondo abalou a família de Nevada". "Nossas orações estão com as vítimas e todos os afetados por esse ato de covardia", afirmou.
Artistas também se manifestaram durante a madrugada. "Horrorizada ao saber do tiroteio em Las Vegas. Meus pensamentos estão com as vítimas e suas famílias. Rezando pela segurança de todos", escreveu a cantora Mariah Carey numa rede social.
A também cantora Celine Dion disse estar rezando "por todas as vítimas inocentes e suas famílias".
Por causa do horário, líderes na Europa e o primeiro-ministro da Austrália, Malcolm Turnbull, manifestaram suas condolências antes mesmo que Trump.
"Os pensamentos do Reino Unido estão com as vítimas e os serviços de emergência que responderam ao chocante ataque em Las Vegas", disse a primeira-ministra britânica, Theresa May.
Turnbull afirmou que a "Austrália está de luto com os EUA" e os primeiro-ministros da Suécia, Stefan Lofven, e da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, também mandaram mensagens de apoio às vítimas.
NENHUM BRASILEIRO
O Itamaraty informou em comunicado que até o presente não há registros de brasileiros entre as vítimas do ataque e que o Consulado-Geral do Brasil em Los Angeles seguirá monitorando a situação.
O núcleo de assistência a brasileiros do Ministério de Relações Exteriores está à disposição para informações e esclarecimentos, de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, pelos telefones (61) 2030-8803 e (61) 2030-8804 e também pelo email dac@itamaraty.gov.br.
Nos demais horários, é possível entrar em contato com o plantão consular da Subsecretaria-Geral das Comunidades Brasileiras e de Assuntos Consulares e Jurídicos no número (61) 98197-2284.
Para casos de emergência, contatar o plantão do consulado-geral do Brasil em Los Angeles no número +1 213 453-1084 ou o Setor de Assistência a Brasileiros, no e-mail sab.losangeles@itamaraty.gov.br.
ISABEL FLECK
DE WASHINGTON
02/10/2017 03h57 - Atualizado às 23h51
Do alto de um hotel em Las Vegas, um atirador matou pelo menos 59 pessoas e feriu outras 527 num festival de música country na noite de domingo (madrugada de segunda em Brasília), segundo informações da polícia local. Este foi o mais grave ataque deste tipo na história moderna dos EUA.
O assassino, identificado como Stephen Paddock, 64, fez os disparos do 32º andar do hotel Mandalay Bay, que fica próximo ao local do festival, na Las Vegas Strip, principal rua da cidade. Ele foi encontrado morto pelos policiais dentro do hotel.
De acordo com a polícia, mais de 22 mil pessoas estavam no show na hora do ataque.
Não está clara ainda a motivação do atirador, que morava na cidade de Mesquite, em Nevada, a 120 km de Las Vegas. Paddock não tinha passagem pela polícia.
As autoridades informaram que ele estava hospedado no Mandalay Bay desde a última quinta-feira (28). A polícia encontrou 23 armas no quarto do hotel, divididas em dez malas, e outras 19 na casa do atirador em Mesquite.
Mais de cinco horas após o ataque, o presidente Donald Trump tuitou, na manhã desta segunda, uma mensagem de apoio às famílias. "Minhas mais sinceras condolências às vítimas e às famílias do terrível ataque em Las Vegas. Deus os abençoe!"
Os tiros começaram por volta das 22h de domingo (2h de segunda em Brasília), durante o show em uma arena aberta do cantor Jason Aldean no festival Route 91 Harvest, em uma área com vários resorts em Las Vegas. Pouco depois da meia-noite, a polícia informou que o atirador estava morto.
Ao ouvirem os disparos, as pessoas começaram a se deitar no chão e a procurar abrigo em meio ao descampado.
Vídeos feitos com celular capturaram cerca de dez segundos de tiroteio intenso, seguidos de 37 segundos sem o barulho de armas. Uma segunda rodada de tiros então começa, com gritos de desespero das pessoas no local.
Em uma rede social, Aldean declarou que "dói o meu coração que isso tenha acontecido com pessoas que estavam apenas curtindo o que deveria ter sido uma saída divertida".
Apesar de a polícia afirmar que Paddock era provavelmente o único atirador, o xerife Joseph Lombardo disse que buscava uma mulher chamada Marilou Danley, que também estaria envolvida no ataque, e dois carros, uma Hyundai Tucson e uma Chrysler Pacifica Touring, ambos com placa de Nevada. Danley e os dois veículos foram localizados algumas horas depois.
Alguns voos previstos para o Aeroporto Internacional McCarran, em Las Vegas, foram desviados para outras cidades após o incidente. Várias ruas da cidade foram bloqueadas.
No Twitter, usuários compartilham vídeos que mostram o momento em que os tiros começaram.
O consultor financeiro Mike McGarry, 53, disse que estava no festival quando ouviu centenas de disparos de tiros.
"Foi uma loucura —eu me deitei em cima do pessoal. Eles têm 20 anos. Eu tenho 53. Eu já vivi uma boa vida", afirmou. A parte de trás de sua camiseta tinha marcas de pegadas de pessoas que tinham corrido por cima dele depois que a multidão entrou em pânico.
O número de vítimas registrado é maior que o do atentado de 2016 na boate gay Pulse, em Orlando, Flórida, quando um atirador que alegou ter ligações com a milícia terrorista Estado Islâmico matou 49 pessoas.
REAÇÕES
O governador do Estado, o republicano Brian Sandoval, disse que "o ato trágico e hediondo abalou a família de Nevada". "Nossas orações estão com as vítimas e todos os afetados por esse ato de covardia", afirmou.
Artistas também se manifestaram durante a madrugada. "Horrorizada ao saber do tiroteio em Las Vegas. Meus pensamentos estão com as vítimas e suas famílias. Rezando pela segurança de todos", escreveu a cantora Mariah Carey numa rede social.
A também cantora Celine Dion disse estar rezando "por todas as vítimas inocentes e suas famílias".
Por causa do horário, líderes na Europa e o primeiro-ministro da Austrália, Malcolm Turnbull, manifestaram suas condolências antes mesmo que Trump.
"Os pensamentos do Reino Unido estão com as vítimas e os serviços de emergência que responderam ao chocante ataque em Las Vegas", disse a primeira-ministra britânica, Theresa May.
Turnbull afirmou que a "Austrália está de luto com os EUA" e os primeiro-ministros da Suécia, Stefan Lofven, e da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, também mandaram mensagens de apoio às vítimas.
NENHUM BRASILEIRO
O Itamaraty informou em comunicado que até o presente não há registros de brasileiros entre as vítimas do ataque e que o Consulado-Geral do Brasil em Los Angeles seguirá monitorando a situação.
O núcleo de assistência a brasileiros do Ministério de Relações Exteriores está à disposição para informações e esclarecimentos, de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, pelos telefones (61) 2030-8803 e (61) 2030-8804 e também pelo email dac@itamaraty.gov.br.
Nos demais horários, é possível entrar em contato com o plantão consular da Subsecretaria-Geral das Comunidades Brasileiras e de Assuntos Consulares e Jurídicos no número (61) 98197-2284.
Para casos de emergência, contatar o plantão do consulado-geral do Brasil em Los Angeles no número +1 213 453-1084 ou o Setor de Assistência a Brasileiros, no e-mail sab.losangeles@itamaraty.gov.br.
Toda nudez será castigada
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2017/10/1923414-toda-nudez-sera-castigada.shtml
Por Gregorio Duvivier
02/10/2017 02h00 - Atualizado às 11h42
Um artista nu permite que espectadores manipulem suas articulações. Uma criança, acompanhada da mãe, toca no seu pé.
Sugiro às pessoas que viram erotismo nessa cena que procurem tratamento psicológico. Amigo, você sofre de alguma doença grave: ou tem tesão em crianças, ou tem tesão em pés, ou tem tesão em crianças tocando em pés. Ou é pedófilo, ou podófilo, ou pedopodófilo.
A cena em questão é tão erótica quanto o teto da Capela Sistina (em que Adão, vale lembrar, estava pelado) ou aquela cena do "E.T." em que a criança toca no dedo do extraterrestre (em que Adão, vale lembrar, estava pelado, vestindo apenas um cachecol). Deve ter gente que vê erotismo nisso. E deve ter gente que vê, inclusive, na extremidade vermelha do dedo do E.T. um símbolo fálico. Mas o problema é delas, e não do E.T.. O tesão é de quem vê. O mesmo vale para quem se escandaliza com o seio de uma mãe que amamenta. Isso é coisa de gente muito tarada. Por acaso, o Brasil tá cheio delas.
José Wilker contava que tinha um parente que se relacionava sexualmente com uma cabra, e todo o mundo sabia disso. O tal parente, quando viu "Dona Flor e seus Dois Maridos", ficou tão chocado com a cena da nudez que cortou relações com o Wilker. Brasil, o país em que só a nudez choca. Todo o resto é perdoável.
Viva o país em que o topless é proibido, mas a ejaculação no ônibus é tolerada. Um país em que uma exposição dita profana é cancelada, mas o mandato do Aécio segue firme e forte. O país em que o professor não pode ter partido, mas pode ter igreja, e fazer propaganda da igreja, mesmo na escola pública.
Sabe o que é um crime contra a infância? Ensinar criacionismo nas escolas. Crime contra a infância é a música gospel da Aline Barros que ensina as crianças a pagarem o dízimo: "Jesus se agrada, Jesus se agrada / da ofertinha da criançada / Tirilim, tim, tim / oferta vai caindo dentro da caixinha".
Brasileiro tem orgulho de dizer que adora crianças. Não sei de quais crianças a gente tá falando. Seis milhões de crianças no Brasil vivem em situação de extrema pobreza -muitas delas na rua. Ninguém parece tão chocado quanto com a exposição do MAM. Talvez essas crianças precisassem assistir a uma nudez indevida, talvez precisassem tocar no pé de um artista nu. Aí, sim, o Brasil ia rodar a baiana. "Miséria, desnutrição, analfabetismo, vá lá. O importante é que essa criançada não veja um pinto!"
Por Gregorio Duvivier
02/10/2017 02h00 - Atualizado às 11h42
Um artista nu permite que espectadores manipulem suas articulações. Uma criança, acompanhada da mãe, toca no seu pé.
Sugiro às pessoas que viram erotismo nessa cena que procurem tratamento psicológico. Amigo, você sofre de alguma doença grave: ou tem tesão em crianças, ou tem tesão em pés, ou tem tesão em crianças tocando em pés. Ou é pedófilo, ou podófilo, ou pedopodófilo.
A cena em questão é tão erótica quanto o teto da Capela Sistina (em que Adão, vale lembrar, estava pelado) ou aquela cena do "E.T." em que a criança toca no dedo do extraterrestre (em que Adão, vale lembrar, estava pelado, vestindo apenas um cachecol). Deve ter gente que vê erotismo nisso. E deve ter gente que vê, inclusive, na extremidade vermelha do dedo do E.T. um símbolo fálico. Mas o problema é delas, e não do E.T.. O tesão é de quem vê. O mesmo vale para quem se escandaliza com o seio de uma mãe que amamenta. Isso é coisa de gente muito tarada. Por acaso, o Brasil tá cheio delas.
José Wilker contava que tinha um parente que se relacionava sexualmente com uma cabra, e todo o mundo sabia disso. O tal parente, quando viu "Dona Flor e seus Dois Maridos", ficou tão chocado com a cena da nudez que cortou relações com o Wilker. Brasil, o país em que só a nudez choca. Todo o resto é perdoável.
Viva o país em que o topless é proibido, mas a ejaculação no ônibus é tolerada. Um país em que uma exposição dita profana é cancelada, mas o mandato do Aécio segue firme e forte. O país em que o professor não pode ter partido, mas pode ter igreja, e fazer propaganda da igreja, mesmo na escola pública.
Sabe o que é um crime contra a infância? Ensinar criacionismo nas escolas. Crime contra a infância é a música gospel da Aline Barros que ensina as crianças a pagarem o dízimo: "Jesus se agrada, Jesus se agrada / da ofertinha da criançada / Tirilim, tim, tim / oferta vai caindo dentro da caixinha".
Brasileiro tem orgulho de dizer que adora crianças. Não sei de quais crianças a gente tá falando. Seis milhões de crianças no Brasil vivem em situação de extrema pobreza -muitas delas na rua. Ninguém parece tão chocado quanto com a exposição do MAM. Talvez essas crianças precisassem assistir a uma nudez indevida, talvez precisassem tocar no pé de um artista nu. Aí, sim, o Brasil ia rodar a baiana. "Miséria, desnutrição, analfabetismo, vá lá. O importante é que essa criançada não veja um pinto!"
domingo, 1 de outubro de 2017
A burrice vence pela lei do menor esforço e quer calar quem pensa
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardo-carvalho/2017/10/1922836-a-burrice-vence-pela-lei-do-menor-esforco-e-quer-calar-quem-pensa.shtml
Por Bernardo Carvalho
01/10/2017 02h00
A força da burrice vem da sua incapacidade de compreender. A lei do menor esforço e a lei do mais forte se retroalimentam. Para que pensar, se podemos calar quem se esforça em fazê-lo? É aí que a imbecilidade se confunde com a má-fé que a instrumentaliza.
Mesmo depois de tudo o que já se escreveu sobre o encerramento da exposição Queermuseu, no Santander Cultural de Porto Alegre, as imagens do vídeo gravado por autodenominados "militantes conservadores" durante visita à mostra (visita e vídeo que concorreram, ao que parece, para a espantosa decisão do banco) continuam ressoando na minha cabeça.
A burrice exige que se explique tudo de novo, desde o zero. O bê-á-bá, sempre, em vão. É uma tática eficaz. A estupidez vence pela exaustão.
Uma das conquistas da modernidade ocidental é a compreensão de que a realidade do objeto e sua representação são coisas diversas. É o que permite o exercício da razão, as ciências, o estudo das religiões e o entendimento de que nem tudo o que dizem os personagens numa obra corresponde às ideias do autor, assim como não basta desenhar um unicórnio para que ele exista.
A representação é reflexiva. Ao revisitar a ação por diferentes pontos de vista, ela relativiza, permite a circulação de ideias. É um princípio civilizatório básico, que teria sido suficiente para aplacar a ira (ou a má-fé) de um dos militantes que perguntava, aos gritos, à saída da exposição em Porto Alegre, se aquilo não era pedofilia.
Não, pedofilia é outra coisa. Uma obra que representa um ato de sodomia pode até ser considerada um ato, mas não sodomia. E é por isso que nós entendemos a arte, no mundo da razão, como uma ação reflexiva.
Uma obra de arte, por mais que represente ou reproduza um ato sexual (ou mesmo pornográfico, mas não era o caso da exposição), não poderá ser considerada pornografia porque, sendo um ato reflexivo, é também um discurso de segundo grau. Não tem a mesma intenção, não está no mesmo contexto e –imagino que para a decepção do militante– em geral tampouco surte os mesmos efeitos da pornografia.
Por ser ato reflexivo, ou a arte é questionável ou não é arte. Não existe arte indiscutível. Ela se dá, como qualquer outra representação, no âmbito das ideias, que por sua vez só existem por meio do debate ou, como os militantes do MBL tanto gostam de lembrar, da liberdade de expressão.
O militante pode até achar que boa parte da arte contemporânea está reduzida a uma representação retórica, primária e ilustrativa, que barateia a inteligência. É uma crítica possível. Toda arte é passível de ser debatida. A única diferença em relação às religiões, que também são representações humanas e, portanto, passíveis de questionamento, é que para a arte essa é a sua condição de possibilidade.
O fato de podermos questionar a arte pressupõe que não precisamos silenciá-la. Se a debatemos, é porque ela não impõe uma regra absoluta. A arte depende de interpretação tanto quanto as religiões (em meio à exposição, um dos militantes perguntava, entre um xingamento e outro, o que os católicos pensariam daquilo tudo). E, de mais a mais, à exposição, como ao teatro ou à igreja, vai quem quer.
É o princípio do Estado laico. As religiões se contradizem. Para que possam conviver em paz, é preciso que sejam entendidas pelo poder público como manifestações do espírito humano (e não como verdades absolutas).
O militante tem todo o direito de pôr em dúvida uma exposição. Mas não é por acreditar em demônio (ou ficar doente quando o vê) que o demônio de fato exista ou que não possa ser representado.
Mais incrível (e muito mais preocupante) que a pusilanimidade da decisão do banco é a liminar de um juiz que, uma semana depois, suspendeu as apresentações de uma peça na qual Jesus é interpretado por uma atriz transexual. Se fôssemos seguir ao pé da letra a lógica da sentença, nem a Bíblia poderia ter sido escrita, porque contradiz valores, crenças e símbolos de outras religiões.
Mas para que pensar e debater se podemos delegar esse esforço a guias e justiceiros que nos poupam da preocupação de discutir a impostura moral que representam?
Por que não nos deixamos convencer por quem repete normas (sobre a cura de homossexuais e a salvação da pátria pelos militares, por exemplo) que, à força de ouvi-las, acabaremos acreditando, segundo eles, termos pensado nós mesmos?
Assim como a ignorância, a burrice é contagiante porque é natural. Esperemos que os exemplos recentes não sejam o anúncio de um novo padrão de inteligência para o país.
Por Bernardo Carvalho
01/10/2017 02h00
A força da burrice vem da sua incapacidade de compreender. A lei do menor esforço e a lei do mais forte se retroalimentam. Para que pensar, se podemos calar quem se esforça em fazê-lo? É aí que a imbecilidade se confunde com a má-fé que a instrumentaliza.
Mesmo depois de tudo o que já se escreveu sobre o encerramento da exposição Queermuseu, no Santander Cultural de Porto Alegre, as imagens do vídeo gravado por autodenominados "militantes conservadores" durante visita à mostra (visita e vídeo que concorreram, ao que parece, para a espantosa decisão do banco) continuam ressoando na minha cabeça.
A burrice exige que se explique tudo de novo, desde o zero. O bê-á-bá, sempre, em vão. É uma tática eficaz. A estupidez vence pela exaustão.
Uma das conquistas da modernidade ocidental é a compreensão de que a realidade do objeto e sua representação são coisas diversas. É o que permite o exercício da razão, as ciências, o estudo das religiões e o entendimento de que nem tudo o que dizem os personagens numa obra corresponde às ideias do autor, assim como não basta desenhar um unicórnio para que ele exista.
A representação é reflexiva. Ao revisitar a ação por diferentes pontos de vista, ela relativiza, permite a circulação de ideias. É um princípio civilizatório básico, que teria sido suficiente para aplacar a ira (ou a má-fé) de um dos militantes que perguntava, aos gritos, à saída da exposição em Porto Alegre, se aquilo não era pedofilia.
Não, pedofilia é outra coisa. Uma obra que representa um ato de sodomia pode até ser considerada um ato, mas não sodomia. E é por isso que nós entendemos a arte, no mundo da razão, como uma ação reflexiva.
Uma obra de arte, por mais que represente ou reproduza um ato sexual (ou mesmo pornográfico, mas não era o caso da exposição), não poderá ser considerada pornografia porque, sendo um ato reflexivo, é também um discurso de segundo grau. Não tem a mesma intenção, não está no mesmo contexto e –imagino que para a decepção do militante– em geral tampouco surte os mesmos efeitos da pornografia.
Por ser ato reflexivo, ou a arte é questionável ou não é arte. Não existe arte indiscutível. Ela se dá, como qualquer outra representação, no âmbito das ideias, que por sua vez só existem por meio do debate ou, como os militantes do MBL tanto gostam de lembrar, da liberdade de expressão.
O militante pode até achar que boa parte da arte contemporânea está reduzida a uma representação retórica, primária e ilustrativa, que barateia a inteligência. É uma crítica possível. Toda arte é passível de ser debatida. A única diferença em relação às religiões, que também são representações humanas e, portanto, passíveis de questionamento, é que para a arte essa é a sua condição de possibilidade.
O fato de podermos questionar a arte pressupõe que não precisamos silenciá-la. Se a debatemos, é porque ela não impõe uma regra absoluta. A arte depende de interpretação tanto quanto as religiões (em meio à exposição, um dos militantes perguntava, entre um xingamento e outro, o que os católicos pensariam daquilo tudo). E, de mais a mais, à exposição, como ao teatro ou à igreja, vai quem quer.
É o princípio do Estado laico. As religiões se contradizem. Para que possam conviver em paz, é preciso que sejam entendidas pelo poder público como manifestações do espírito humano (e não como verdades absolutas).
O militante tem todo o direito de pôr em dúvida uma exposição. Mas não é por acreditar em demônio (ou ficar doente quando o vê) que o demônio de fato exista ou que não possa ser representado.
Mais incrível (e muito mais preocupante) que a pusilanimidade da decisão do banco é a liminar de um juiz que, uma semana depois, suspendeu as apresentações de uma peça na qual Jesus é interpretado por uma atriz transexual. Se fôssemos seguir ao pé da letra a lógica da sentença, nem a Bíblia poderia ter sido escrita, porque contradiz valores, crenças e símbolos de outras religiões.
Mas para que pensar e debater se podemos delegar esse esforço a guias e justiceiros que nos poupam da preocupação de discutir a impostura moral que representam?
Por que não nos deixamos convencer por quem repete normas (sobre a cura de homossexuais e a salvação da pátria pelos militares, por exemplo) que, à força de ouvi-las, acabaremos acreditando, segundo eles, termos pensado nós mesmos?
Assim como a ignorância, a burrice é contagiante porque é natural. Esperemos que os exemplos recentes não sejam o anúncio de um novo padrão de inteligência para o país.
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